O julgamento e a hipocrisia andam de mãos dadas e abraçados. No centro de São Paulo, uma casa comprada por uma mulher no século 18, virou um museu da cidade, com objetos dos bandeirantes, e nada da história da Marquesa de Santos, a Domitila saí frustrada. Porque não contar a história desta mulher ?

 

Uma mulher em 1818 pediu o divórcio, levou duas facadas do marido numa praça pública. Caso único e raro. Saiu de casa e levou dois filhos. Deu um basta.

 

Pertencendo a alta sociedade paulistana numa noite de 1822 participou de uma festa, onde estava o imperador Dom Pedro I (pai do personagem do Selton Mello, na novela global Nos Tempos do Imperador) estava na cidade para proclamar a Independência do Brasil, mas antes festejou muito.

 

Ao lado do pai, João de Castro Canto, a Domitila de Castro solicitou ao chefe maior do país, que intercedesse para conseguir o divórcio.
Troca de olhares, risinhos e gracejos, Dom Pedro a ajudou e acabou de amores pela recém-conhecida.

 

Dias depois subiu num burrico, no quadro está num cavalo, mas os historiadores dizem que não foi bem assim, proclamou a República do Brasil, ao lado do rio Ipiranga e se mandou para o Rio de Janeiro. Durante meses, trocou cartas quentes com a paulista, que a chama de Titila e ele assina as correspondências como Fogo Foguinho.

 

Longe da sua amada, a saudade apertou, mandou fazer uma casa no Rio para ela, e por lá, Domitila ficou sete anos, tornando-se a amante oficial do rei.

 

Virou a Marquesa de Santos, levou este status, só de birra que Dom Pedro tinha com o seu ministro direto, o José Bonifácio, pois ele detestava Titila, era de Santos.

 

Dom Pedro mandou ele embora para Portugal e assumiu de vez a Domitila, sendo casado com a Leopoldina. Mandou construir um palácio, para a amada no bairro carioca de São Cristóvão, hoje guarda objetos antigos da realeza e da Marquesa.
Dom Pedro I tinha vida dupla, quádrupla, era bem famoso por isso.

 

Leopoldina morreu e deu um maior bafafá, a amante foi mandada embora. Era o ano de 1829, foram sete anos de romance quente. Cinco filhos.

 

Anos depois que chegou em São Paulo, ela comprou um sobrado em 1834, do lado da igreja dos jesuítas, no centro histórico, onde São Paulo surgiu, região conhecida como pátio do Colégio.

 

Ali fez muita festa, organizou bailes e descobriu um novo amor, casou com um militar e fazendeiro por 24 anos, seis filhos e ficou nesta região até sua morte em 1867, já viúva.

 

Abrigou estudante de Direito, fez caridade e doou muito dinheiro. Nunca mais ouviu falar de Dom Pedro I.

 

Está enterrada no cemitério da Consolação, seu túmulo costuma ganhar flores de anônimos. Maioria de mulheres que solicitam encontrar um amor, depois de passar por relacionamentos incômodos.

 

História de mulheres sofrem censura. Tem que ser uma personagem “supostamente” ideal pela sociedade patriarcal para ter a sua história contada.

 

Só uma placa, apenas isso, na porta, da casa que foi de Domitila no centro de São Paulo, lembra quem foi a dona.

 

 

Dia normal de agosto na pacata Laguna, no sul de Santa Catarina, vento sul, sol morno e pescadores armados com suas redes na lagoa Santo Antônio dos Anjos. Era o ano de 2016, em poucas horas, a calmaria seria sacudida por 40 toneladas.

 

Um filhote de baleia franca curioso entrou no canal da Barra no início da tarde, a mãe gigante veio atrás e os dois percorreram mais de oito quilômetros até a matriarca encalhar num banco de areia e virar notícia internacional. Foram mais de dez horas de resgate e várias instituições envolvidas e até com transmissão ao vivo.

 

Laguna é frequentada por baleias há anos, elas vêm da região da Antártica para terem seus filhotes e amamentá-los no sul de Santa Catarina. Próximo dia 1 de julho começa oficialmente a temporada das baleias francas nas praias da região e segue até novembro.

 

De todas que passaram por Laguna, o encalhe de 2016 com suas histórias e personagens permanecem nas conversas e na imaginação popular.

 

Um dos protagonistas é o sargento da reserva do Corpo de Bombeiros, Carlos Alberto Martins, apelidado de Beto Cavalo. Não é a toa que tem esta denominação.

 

Lado a lado com a baleia, ficou horas com cordas puxadas por debaixo do cetáceo. O resgate só poderia ser realizado durante a maré alta que teve seu pico dez horas depois do encalhe.

 

O animal era do tamanho de uma carreta com carga pesada e perigosa. Jorrava água para todo o lado, queria proteger o filhote, que nadava ao seu redor. Enquanto no meio da lagoa, homens, lanchas e mergulhadores e rebocadores  estavam na dúvida se iriam conseguir ou não.

 

Baleias francas migram do gelado Atlântico Sul para amamentar seus filhotes na costa brasileira, onde a água é mais quente e menos perigosa.

 

São mães amorosas, carinhosas e protetoras. Após oito anos de idade, geram um filhote a cada três anos.

 

“Dava pra sentir a vibração da baleia. Eu passava por cima dela rapidamente com uma cinta de guincho e tentava amarrá-la”, lembra Beto, que junto com outros 3 mergulhadores enlaçou o cetáceo.

 

O utensílio, usado para puxar caminhões atolados, foi arrastado por debaixo da baleia.

 

“Passávamos uma cinta por cima da baleia para irritá-la, ai ela se movimentava e nós puxávamos as cintas por debaixo dela até as barbatanas laterais, então eu passava por cima dela rapidamente com outra cinta e tentava amarrá-la. Por três vezes não deu tempo de apertar porque a baleia rolava para o meu lado e se desvencilhava. Na quarta tentativa deu certo”.

 

Para ele, era a sensação de um prédio com dois andares vindo em sua direção. Ficou com medo de ser afogado por quarenta toneladas

 

Ficou famoso na cidade, todos paravam ele na rua para saber detalhes. A única não verdadeira é que ela passou por debaixo da baleia. “Isso é lenda”, conta em risos.

 

Muitos momentos, ele recorda da impressão de ser uma mosca no pelo de um animal. “Quando o cavalo quer espantar a mosca que tá incomodando, sua defesa é vibrar. Eu quando passava com a corda na baleia, ela fazia a mesma coisa”, conta ele.

 

Hoje passa os dias pescando ou mergulhando. A experiência com o cetáceo marcou sua vida.

 

Protocolo de encalhes

 

O Protocolo de Encalhes, coordenado pela APA da Baleia Franca/ICMBio, foi acionado para atender à situação de emergência que iniciou na sexta à tarde, dia 7 de agosto de 2016, com a entrada dos animais pelo canal da barra de Laguna.

 

As instituições parceiras, Projeto Baleia Franca, Udesc, Associação R3 Animal, Polícia Militar Ambiental, Corpo de Bombeiros de Laguna e Marinha do Brasil, conseguiram articular as providências e meios necessários em resposta imediata ao encalhe, com a ajuda de apoiadores.

 

Após o desencalhe, mais três horas foram necessárias para a condução da baleia mãe até a saída do canal da barra de Laguna. Aplausos e suspiros de alívio por todos que correram o canal dos Molhes, ver o gigante passar.

 

 

 

Sunset a primeira baleia encalhada

 

 

Não foi a primeira vez que homens e barcos desencalharam uma baleia no meio da lagoa. Em 2003, um cetáceo baleia franca subadulta, 9 metros de comprimento, encalhou, após percorrer 11 quilômetros do canal de ligação da lagoa Santa Marta com o oceano.

 

O animal também foi resgatado com sucesso. O Instituto Australis/Projeto Baleia Franca, coordenou os trabalhos de resgate, com a ajuda da Polícia Ambiental, do Corpo de Bombeiros, da Capitania dos Portos e de pescadores locais.

 

A primeira tentativa de rebocá-la foi feita com barcos artesanais. Somente depois de 30 horas, conseguiram desprender o animal do banco de areia. A baleia ganhou o nome de Sunset (pôr do sol, em inglês). Era uma quinta-feira, dia 31 de julho de 2003. A data do salvamento é conhecida como o Dia Nacional da Baleia Franca.

 

Beto Cavalo estava lá, época sem uso de rebocadores e toda a mídia ao redor. Somente dois barcos pequenos e curiosos. Era mais difícil, pois não existia um protocolo de desencalhe e nem muita técnica e estrutura. Diferentes dos dias atuais. “Aquela deu trabalho”, recorda.

 

 

 

Baleias gostam de entrar no canal

 

 

A entrada de baleias franca no canal da barra de Laguna é relativamente frequente. Quase todos os anos pelo menos um caso é registrado, na maioria das vezes, as baleias entram apenas no canal da barra e saem sozinhas, sem encalhar e sem necessidade de intervenção.

 

A região por onde as baleias passam é chamada de Rota da Baleia Franca, integra os municípios de Garopaba, Imbituba e Laguna, considerados berçários. É nessa região da costa sul de Santa Catarina que as Baleias Franca, que passam o verão se alimentando na Antártida, vêm ter os seus filhotes e amamentá-los entre julho e outubro. Período do ano que muita gente visita a região para contemplar de longe o espetáculo da natureza de uma das espécies de baleias mais ameaçadas de extinção.

 

 

Resgate da baleia em 2016 – Crédito Ronaldo Amboni

 

 

 

 

Resgate da baleia em 2003

 

Hoje Jaqueline está rindo à toa

Olhar angelical, um gentleman. Carinhoso, apaixonante. Até que veio um vírus do oriente, que transformou a vida de Jaqueline Fogaça, 38 anos, o homem apresentado como amor da vida, marido, virou um carrasco, chantagista e ameaçador.

Seis anos juntos, a pandemia provocou o medo da morte por um vírus e nas mãos de um homem. O casamento estava marcado para 10 de agosto de 2020.

Professora efetiva, casa própria, pele de pêssego, olhos claros, roupas combinando, carro, um sorriso cativante, organizadora de campanhas entre amigos para ajudar imigrantes africanos na região de Criciúma.

Não suspeitava do homem com cheiro de perfume importado, solícito, gerente de uma instituição, sempre bem-arrumado, e só elogios dos colegas de trabalho.

Era mágico, um sonho de amor, tudo estava indo bem. No mês de março de 2020, os dois tiveram que conviver 24 horas por dia e a tampa da caixa de pandora foi arrancada.

Começou a controlar horários dela, amizades criticadas e roupas. O psicológico foi ameaçado quando ele levava assuntos internos para a família e isso a incomodava.

Ele não me aceitava, do jeito que eu sou. Era outra pessoa”, relembra depois de seis meses que pediu o divórcio.

Jaqueline no começo do namoro, com os primeiros sinais da verdadeira personalidade do seu parceiro, ela fez o que milhares de mulheres fazem perdoam porque acreditam que o abusador vai mudar. E isso não acontece.

Resultado ? “Comecei a mudar comportamentos para não levantar a fúria dele”, e lá foram cinco anos.

O estresse era tão grande, ao perceber que não era uma relação saudável. Triste e melancólica, numa ida para a cidade vizinha capotou o carro várias vezes. Saiu viva e louca para dar um basta. Ele não aceitou. Semanas para ele sair da sua casa. Jaque ficou com medo, amigas através de mensagens davam força e resiliência. Pesadelo acabou.

Hoje está encantada com a liberdade conquistada. Já deu entrada na separação e começou novos cursos.

Os gatilhos de alerta

Segundo os psicólogos, o alerta é claro quando o companheiro vai desde o controle velado das redes sociais da vítima até insistência em obter senhas pessoais, controle de conversas, curtidas e amizades online.

Outra estratégia comum em abusadores é o isolamento da vítima de seus amigos e familiares. Humilha, invade a privacidade, faz chantagem, entra em um ciclo onde agrada e maltrata em seguida.

A primeira fase é a tensão, é quando a mulher vai cedendo. A segunda é a da crise, quando tem briga e mais escalonamento da violência. É quando ela é xingada ou sofre abuso físico ou sexual. E a terceira fase é a lua de mel, que são as conversas íntimas, sexo intenso e quando ele promete que vai mudar. Neste momento, a vítima sempre perdoa, porque ela acredita que o abusador vai mudar. E isso não acontece”. Lá se foram seis anos nesta expectativa na vida da Jaqueline. “Pensava que ele iria melhorar e isso só piorava e eu não queria ver”, lamenta.

A intimidade revela os indivíduos

A escalada de violência é mundial. Segundo dados da ONU Mulheres divulgados no fim de setembro, o confinamento levou a aumentos das denúncias ou ligações para as autoridades por violência doméstica.

Para a psicanalista Marina “a intimidade revela os indivíduos”. A restrição da vida social e das relações vividas na “rua”, tiveram de ser ressignificadas. A intimidade e as relações estão interpeladas por uma outra ótica .

A pandemia mundial do coronavírus redimensionou desde o campo público, ao campo privado. Não há quem não tenha reorganizado sua rotina, suas relações sociais e jornadas de trabalho e neste sentido, as dinâmicas familiares e conjugais também não ficam de fora. A crise socioeconômica e sanitária reverbera na subjetividade dos indivíduos e suas relações. Medidas de confinamento e isolamento social, atravessam a intimidade de quem divide o dia a dia no âmbito doméstico.

Isso deflagrou uma gravidade no campo relacional: a violência.

Dados estatísticos sugerem o agravamento da violência de gênero durante a pandemia. Só no Brasil, por exemplo, foi registrado o agravamento do número de feminicídios ainda no primeiro semestre de 2020, 1,9% a mais que o registrado no mesmo período no ano de 2019, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A violência doméstica está atrelada também a consequência de questões estruturais macroeconômicas, distribuição desigual de renda e relações de poder desiguais. Muitas situações de violência são invisibilizadas no dia-a-dia, por vezes banalizadas e sustentadas pela máxima |”em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”.

Para entendermos a complexidade do fenômeno que envolve a violência de gênero é imprescindível recorrer a teorias que a compreendam em toda sua dinâmica social e estrutural. Há uma legitimação da violência contra as mulheres em nossa sociedade, que é respaldada pela cultura do machismo. Para Saffioti & Almeida (1995), a violência de gênero pode ser entendida como um tipo específico de violência que objetiva à preservação da organização social de gênero, fundada na hierarquia e na desigualdade de lugares sociais e sexuais. Ela é então produzida no interior das relações de poder, visando o controle de uma parte sobre a outra.

Os sonhos são aliados para o autoconhecimento. Muitos têm medos deles, outros querem jogar no bicho ou loteria depois de um.

 

Várias ideias, outros livros e gurus tentam decifrar sonhos. Cada um com teorias e suposições. Inspiração, premonições e profecias.

 

Mas o que são eles ? Será que podem nos ajudar em nossos desafios ?

 

Na área da psicologia um dos primeiros a estudar os sonhos foi o austríaco Carlos Jung, em seu livro “A Interpretação dos Sonhos” descreve “…dentro de cada um de nós há um outro que não conhecemos. Ele fala conosco por meio dos sonhos.”

 

O pai da psicologia analítica dizia que “ os sonhos estão relacionados com a etapa da vida e com o processo de individuação de quem sonha”.

 

Neste processo está a arquiteta Mayara Amboni, 27 anos, cansada de sonhar tanto, partiu em busca de soluções e foi atrás, literalmente, dos seus sonhos deu uma guinada na vida e montou um canal no youtube para contar suas experiências.

 

Não quer ser famosa, nem expert no assunto, somente quer se autoconhecer e ajudar quem está disposto a isso.

 

Numa noite quente de dezembro de 2016, Mayara acordou lembrando do sonho nos mínimos detalhes. Menina grávida com uma foice. Passava por um período que gostaria de mudar.

 

Lá foi ela na busca por respostas, comprou livros, leu muito e descobriu Carl Jung, um alento para suas angustias e seus sonhos. Para ela “os sonhos ensinam sobre liberdade”.

 

Começou a pintar e mudar sua perspectiva da vida.

 

 

 

 

 

Sonhos renegados

 

Muitas nações têm relação mais estreita com os sonhos. Séculos que o homem tem fascínio pelo sonho, mas depois da Idade Média, o homem não pode mais ser ajudado pelo sonho de uma maneira criativa e premonitório. O ser humano deixou de lado os sonhos. Não eram mais importantes. Isso, para muitos estudiosos, deixou uma lacuna para ler o mundo e nós mesmos, e colocou mais dúvidas no indivíduo.

 

A psicóloga junguiana Laura Villares “temos percepções as vezes muitos fechadas, os sonhos nos ajudam a ver outros pontos de vistas, ou perspectivas de conteúdos, outras vezes emoções. Ele prepara a gente para a vida”, descreve.

 

Ao sonhar você se olha no espelho, ele faz um prognóstico, uma atitude que está nascendo, por exemplo.

 

A dica é  escreva seus sonhos e observe seu dia. Reflita sobre  o sonho durante o decorrer da semana. Um delicado processo que ajuda no autoconhecimento.

 

 

Índios adoram sonhar

 

 

Os índios costumam compartilhar os sonhos, onde transformam uma experiência única e individual, em narrativas acessíveis a todos os membros de uma coletividade.

 

Conforme a tribo, os sonhos se destacam como uma das diferentes maneiras de transmissão de ideias, tradições e de conhecimento.

Os guaranis costumam pedir respostas para as suas perguntas. Suas decisões e até cantorias são baseadas em experiências oníricas.

 

Para eles, a alma traz alguma informação sobre os caminhos que percorreu.

 

Os guaranis entendem que o corpo e a alma devem estar preparados para o sono, que precisa ser confortável e tranquilo, de preferência sem barulhos e interrupções.

 

Depois, ao acordar devem refletir sobre o sonho que tiveram, e prestar atenção a tudo, nos mínimos detalhes. Num grande círculo eles contam para a tribo, e o pajé faz as interpretações com ajuda de todos.

 

 

Bons sonhos, não tenha medo deles. Eles são seu inconsciente escrevendo para você.