Encontrar graça no cotidiano, por isso gosto de escrever crônicas. Tudo observo, analiso e tento entender o mundo

Parafraseando Rubens Braga, grande cronista brasileiro

“Sou uma mulher quieta, o que eu gosto é ficar num banco sentada, entre moitas, calado, anoitecendo devagar, meio triste, lembrando umas coisas, umas coisas que nem valiam a pena lembrar.

 

 

Cidadela do “ele era tão legal e simpático”

 

 

 

Na parede do quarto luzes vermelhas e rápidas vindo da rua. O barulho anunciava: Era a polícia, seis horas da manhã de um dia para ser esquecido para uns e lembrados por outros.

 

Alguns choros e pedidos de calma da casa ao lado fizeram Pedro sair da cama e espiar pela janela. Conseguiu ver o vizinho sendo levado pela viatura, enquanto a esposa dizia algo sobre advogados serão acionados.

 

A esposa de Pedro, foi mais rápida e pegou o celular. Nos grupos de whats, ela participava de vários, desde o cerco do Jericó até das compras de verduras orgânicas. Lá estava um bafafá, parecia que a cidade inteira tinha acordado com as luzes da polícia. Várias pessoas conhecidas receberam a visita inesperada dos homens de roupa preta. A acusação? Corrupção, um amigo, do amigo do amigo de um policial que estava na operação tinha comentado no grupo, que se espalhou  rápido.

 

Pedro conhecia o casal da casa elegante do lado, sempre atencioso, educado e tinha um quarto com cama king size, que ele costuma invejar, toda vez que fechava a janela do seu quarto e a cortina alheia estava entreaberta.

 

A sua esposa, elogiava o lustre novo no salão de festas e o jardim. Eles reformaram toda a casa há menos de um ano, até banheira instalaram. Ele viu quando a loja entregou com vários homens para tirar do caminhão.

 

Nunca entraram na casa, mas como moravam no quinto andar do prédio, num apartamento alugado, meio que inconsciente espiavam a boa vida dos vizinhos, até do cachorro, com banho e tosa toda quinta-feira.

 

O jardim naquele dia que a polícia apareceu nunca mais foi o mesmo, até o cachorro ficou com vergonha de latir e começou a se esconder na sua casinha.

 

Naquela manhã ensolarada foi trabalhar como outro dia qualquer, mas não era. Ao chegar no serviço todos queriam saber sobre o vizinho. Pedro abriu a boca e disse: “Ele era tão legal e simpático”.

 

TVs, rádios, jornais, sites, facebook, instagram a cidade estava sendo citada. Com calma, na hora do almoço, Pedro ao abrir o site que sempre costuma ler as notícias nacionais e estaduais, ali estava sua cidade na manchete. Leu os depoimentos dos delegados e do Ministério Público sobre as investigações e prisões. Ficou com vergonha. Sua amada cidade, mais uma vez, era sinônimo de falcatrua.

 

Em 10 anos, era o oitavo escândalo de corrupção que membros da sociedade estavam envolvidos.

 

Conhecia todos, ficou com mais vergonha ainda. Algumas vezes participou de festas com churrasco do bom e cerveja gelada. Nunca se questionou como o amigo tinha enriquecido tão rápido. Como tinha tantas mulheres bonitas o rodeando. Em muitos momentos, ser amigos deles era até status na cidade.

 

De uma forma não direta até se beneficiou comendo do bom e do melhor. Ficou pensando horas nisso.

 

Lembrou da época que um primo da mulher pediu emprego para a filha, e o amigo conseguiu num órgão público.

 

Queria conversar com o primo, mas ainda não teve coragem. Ninguém sabia? Ninguém desconfiava?

 

E Pedro na rede social postava tanto com acabar com a corrupção. Mais uma vez se sentiu humilhado. Indignado com ele mesmo.

 

Um outro amigo perguntou: “mas você nunca ouviu dizer, que ele tava envolvido em rolo com fulano e só aparecia para bater ponto e sumia?”

 

Não. Para Pedro ele era “tão legal e simpático”