Encontrar graça no cotidiano, por isso gosto de escrever crônicas.

Tudo observo, analiso e tento entender o mundo

 


 

 

Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego

 

Presenciei um suicídio. Um homem aparentemente 30 a 40 anos pulou de um viaduto no centro de São Paulo. Cinquenta metros do chão, seu corpo frágil, parecia um boneco, sua cabeça um tomate maduro espalhado no asfalto.

Não carregava nada, não gritou, nem fez gestos. Nada, simplesmente pulou. A rua movimentada, vai e vem de gente. Não ficou parado, não subiu no gradil esperando algo, flutuou no ar. Estava andado e de repente correu e pulou. Caiu numa área de parada de ônibus.

Do alto do prédio, lá estava eu, tentando um novo ângulo de uma foto diferente do centro histórico, quando presenciei a cena.

Na hora baixei a máquina fotográfica. Poderia fazer uma sequência de imagens reais, sensacionalistas e ganhar muitos likes (não é isso que todo mundo procura ?)

Não tinha o direito. Por respeito, consideração e empatia àquela pessoa.

Logo chegaram as ambulâncias. Polícia, curiosos filmando, tirando fotos e conversando entre si.

Paramédicos concluíram que ele ainda estava vivo. Do lado outra equipe já estava preparada para juntar os restos mortais com uma caixa. A médica loira não deixou, com o sangue nos joelhos agachados no asfalto, fazia movimentos no coração do homem. A camiseta branca ensanguentada contrastava com a cena com os pés sujos e descalços.

Deixa ele morrer em paz. Se era isso que ele queria. Deixa ele”, falei como se a médica pudesse me ouvir.

Meu marido, que já trabalhou na madrugada de pronto socorro mais movimentado da cidade, tirando sangue de baleados, acidentados, queimados, estupradas e suicidas soltou a frase “Ela tem o dever, de tentar, até o último instante, salvar a vida dele”.

Fiquei ali, observando a vida indo embora. Quem era ele ? O que estava pensando ? Por que pulou ?

Presenciei um desfecho de uma série de fatores acumulados na história dele, era a consequência final de um processo dolorido.

Levaram ele ainda vivo. Poucos minutos depois chegou a polícia técnica, o sangue vivo, vermelho intenso, brilhando no céu estava lá.

Bateram algumas fotos, fizeram perguntar e foram embora. Naquela região não é raro acontecer.

 

São registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 1 milhão no mundo. Cerca de 96,8% dos casos de suicídio estavam relacionados a transtornos mentais. Em primeiro lugar está a depressão, seguida do transtorno bipolar e do abuso de substâncias.

 

Poderia terminar o texto com uma frase de efeito, mas não consigo pensar em nenhuma agora.

 

Só lembrei da música do Chico Buarque….

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego.

The end.

Cidadela do “ele era tão legal e simpático”

 

 

 

Na parede do quarto luzes vermelhas e rápidas vindo da rua. O barulho anunciava: Era a polícia, seis horas da manhã de um dia para ser esquecido para uns e lembrados por outros.


Alguns choros e pedidos de calma da casa ao lado fizeram Pedro sair da cama e espiar pela janela. Conseguiu ver o vizinho sendo levado pela viatura, enquanto a esposa dizia algo sobre advogados serão acionados.


A esposa de Pedro, foi mais rápida e pegou o celular. Nos grupos de whats, ela participava de vários, desde o cerco do Jericó até das compras de verduras orgânicas. Lá estava um bafafá, parecia que a cidade inteira tinha acordado com as luzes da polícia. Várias pessoas conhecidas receberam a visita inesperada dos homens de roupa preta. A acusação? Corrupção, um amigo, do amigo do amigo de um policial que estava na operação tinha comentado no grupo, que se espalhou  rápido.


Pedro conhecia o casal da casa elegante do lado, sempre atencioso, educado e tinha um quarto com cama king size, que ele costuma invejar, toda vez que fechava a janela do seu quarto e a cortina alheia estava entreaberta.


A sua esposa, elogiava o lustre novo no salão de festas e o jardim. Eles reformaram toda a casa há menos de um ano, até banheira instalaram. Ele viu quando a loja entregou com vários homens para tirar do caminhão.


Nunca entraram na casa, mas como moravam no quinto andar do prédio, num apartamento alugado, meio que inconsciente espiavam a boa vida dos vizinhos, até do cachorro, com banho e tosa toda quinta-feira.


O jardim naquele dia que a polícia apareceu nunca mais foi o mesmo, até o cachorro ficou com vergonha de latir e começou a se esconder na sua casinha.


Naquela manhã ensolarada foi trabalhar como outro dia qualquer, mas não era. Ao chegar no serviço todos queriam saber sobre o vizinho. Pedro abriu a boca e disse: “Ele era tão legal e simpático”.


TVs, rádios, jornais, sites, facebook, instagram a cidade estava sendo citada. Com calma, na hora do almoço, Pedro ao abrir o site que sempre costuma ler as notícias nacionais e estaduais, ali estava sua cidade na manchete. Leu os depoimentos dos delegados e do Ministério Público sobre as investigações e prisões. Ficou com vergonha. Sua amada cidade, mais uma vez, era sinônimo de falcatrua.


Em 10 anos, era o oitavo escândalo de corrupção que membros da sociedade estavam envolvidos.


Conhecia todos, ficou com mais vergonha ainda. Algumas vezes participou de festas com churrasco do bom e cerveja gelada. Nunca se questionou como o amigo tinha enriquecido tão rápido. Como tinha tantas mulheres bonitas o rodeando. Em muitos momentos, ser amigo deles era até status na cidade.


De uma forma não direta até se beneficiou comendo do bom e do melhor. Ficou pensando horas nisso.


Lembrou da época que um primo da mulher pediu emprego para a filha, e o amigo conseguiu num órgão público.


Queria conversar com o primo, mas ainda não teve coragem. Ninguém sabia? Ninguém desconfiava? questiona em silêncio.


E Pedro na rede social postava tanto com acabar com a corrupção. Mais uma vez se sentiu humilhado. Indignado com ele mesmo.


Um outro amigo perguntou: “mas você nunca ouviu dizer, que ele tava envolvido em rolo com fulano e só aparecia para bater ponto e sumia?”


Não. Para Pedro ele era “tão legal e simpático”

 

 

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Meus vizinhos invisíveis adoráveis

 

 

 

 

 

Vizinhos felizes são invisíveis. Passam despercebido que chegam a flutuar. Ao esbarrar com eles no elevador gelado e sombrio, você apenas percebe o seu reflexo no espelho. Eles de tão amorosos são transparentes, não pesam e não tem cara amarrada. Eles não andam, flutuam, você não percebem eles até esquecer de você mesmo, sua agenda, rotina.

Apenas o cachorro teimoso que late, a lata de cerveja aberta e os risos contínuos que vem em seguida.

Eles escutam música que parece da sua playlist. Deixam um cheiro gostoso no elevador, sem contar a comida, sim, eles cozinham delícias. Cheiro de manjericão com alho e carne assada, barulho de bolinho de chuva num dia qualquer. Parece que vivem num clima de férias no seu cotidiano.

No sábado, eles costumam acordar tarde, só para curtir. Tem um carro simples com cor berrante. Quando saem da garagem, parecem um casal real saindo do seu castelo. Sua realeza não são coroas de diamante, nem fortunas, sim a simples felicidade em acordar.

Eles conversam entre si, contam piadas para eles mesmos, e dão muitas gargalhadas. Cantam com seus músicos prediletos. Passam longe das canções da década de 90 pra frente. Tem uma certa tendência para MPB. Caetano Veloso, então, deixa eles em êxtase.

Meus vizinhos invisíveis têm internet, pois aparece no meu wifi, o nome pode ser artur senha protegida. Mas nunca os vi com smartphones nas mãos, e nem nunca mandaram bom dia nem post no grupo do condomínio.

Curiosa, uma vez parei no andar deles, só para ver a entrada da porta, e lá estava a frase mais singela e boba que poderia imaginar, mas agora faz muito sentido: Sorrisos? Aqui tem.

Ah !!! Meus vizinhos invisíveis adoráveis.