Dia normal de agosto na pacata Laguna, no sul de Santa Catarina, vento sul, sol morno e pescadores armados com suas redes na lagoa Santo Antônio dos Anjos. Era o ano de 2016, em poucas horas, a calmaria seria sacudida por 40 toneladas.

 

Um filhote de baleia franca curioso entrou no canal da Barra no início da tarde, a mãe gigante veio atrás e os dois percorreram mais de oito quilômetros até a matriarca encalhar num banco de areia e virar notícia internacional. Foram mais de dez horas de resgate e várias instituições envolvidas e até com transmissão ao vivo.

 

Laguna é frequentada por baleias há anos, elas vêm da região da Antártica para terem seus filhotes e amamentá-los no sul de Santa Catarina. Próximo dia 1 de julho começa oficialmente a temporada das baleias francas nas praias da região e segue até novembro.

 

De todas que passaram por Laguna, o encalhe de 2016 com suas histórias e personagens permanecem nas conversas e na imaginação popular.

 

Um dos protagonistas é o sargento da reserva do Corpo de Bombeiros, Carlos Alberto Martins, apelidado de Beto Cavalo. Não é a toa que tem esta denominação.

 

Lado a lado com a baleia, ficou horas com cordas puxadas por debaixo do cetáceo. O resgate só poderia ser realizado durante a maré alta que teve seu pico dez horas depois do encalhe.

 

O animal era do tamanho de uma carreta com carga pesada e perigosa. Jorrava água para todo o lado, queria proteger o filhote, que nadava ao seu redor. Enquanto no meio da lagoa, homens, lanchas e mergulhadores e rebocadores  estavam na dúvida se iriam conseguir ou não.

 

Baleias francas migram do gelado Atlântico Sul para amamentar seus filhotes na costa brasileira, onde a água é mais quente e menos perigosa.

 

São mães amorosas, carinhosas e protetoras. Após oito anos de idade, geram um filhote a cada três anos.

 

“Dava pra sentir a vibração da baleia. Eu passava por cima dela rapidamente com uma cinta de guincho e tentava amarrá-la”, lembra Beto, que junto com outros 3 mergulhadores enlaçou o cetáceo.

 

O utensílio, usado para puxar caminhões atolados, foi arrastado por debaixo da baleia.

 

“Passávamos uma cinta por cima da baleia para irritá-la, ai ela se movimentava e nós puxávamos as cintas por debaixo dela até as barbatanas laterais, então eu passava por cima dela rapidamente com outra cinta e tentava amarrá-la. Por três vezes não deu tempo de apertar porque a baleia rolava para o meu lado e se desvencilhava. Na quarta tentativa deu certo”.

 

Para ele, era a sensação de um prédio com dois andares vindo em sua direção. Ficou com medo de ser afogado por quarenta toneladas

 

Ficou famoso na cidade, todos paravam ele na rua para saber detalhes. A única não verdadeira é que ela passou por debaixo da baleia. “Isso é lenda”, conta em risos.

 

Muitos momentos, ele recorda da impressão de ser uma mosca no pelo de um animal. “Quando o cavalo quer espantar a mosca que tá incomodando, sua defesa é vibrar. Eu quando passava com a corda na baleia, ela fazia a mesma coisa”, conta ele.

 

Hoje passa os dias pescando ou mergulhando. A experiência com o cetáceo marcou sua vida.

 

Protocolo de encalhes

 

O Protocolo de Encalhes, coordenado pela APA da Baleia Franca/ICMBio, foi acionado para atender à situação de emergência que iniciou na sexta à tarde, dia 7 de agosto de 2016, com a entrada dos animais pelo canal da barra de Laguna.

 

As instituições parceiras, Projeto Baleia Franca, Udesc, Associação R3 Animal, Polícia Militar Ambiental, Corpo de Bombeiros de Laguna e Marinha do Brasil, conseguiram articular as providências e meios necessários em resposta imediata ao encalhe, com a ajuda de apoiadores.

 

Após o desencalhe, mais três horas foram necessárias para a condução da baleia mãe até a saída do canal da barra de Laguna. Aplausos e suspiros de alívio por todos que correram o canal dos Molhes, ver o gigante passar.

 

 

 

Sunset a primeira baleia encalhada

 

 

Não foi a primeira vez que homens e barcos desencalharam uma baleia no meio da lagoa. Em 2003, um cetáceo baleia franca subadulta, 9 metros de comprimento, encalhou, após percorrer 11 quilômetros do canal de ligação da lagoa Santa Marta com o oceano.

 

O animal também foi resgatado com sucesso. O Instituto Australis/Projeto Baleia Franca, coordenou os trabalhos de resgate, com a ajuda da Polícia Ambiental, do Corpo de Bombeiros, da Capitania dos Portos e de pescadores locais.

 

A primeira tentativa de rebocá-la foi feita com barcos artesanais. Somente depois de 30 horas, conseguiram desprender o animal do banco de areia. A baleia ganhou o nome de Sunset (pôr do sol, em inglês). Era uma quinta-feira, dia 31 de julho de 2003. A data do salvamento é conhecida como o Dia Nacional da Baleia Franca.

 

Beto Cavalo estava lá, época sem uso de rebocadores e toda a mídia ao redor. Somente dois barcos pequenos e curiosos. Era mais difícil, pois não existia um protocolo de desencalhe e nem muita técnica e estrutura. Diferentes dos dias atuais. “Aquela deu trabalho”, recorda.

 

 

 

Baleias gostam de entrar no canal

 

 

A entrada de baleias franca no canal da barra de Laguna é relativamente frequente. Quase todos os anos pelo menos um caso é registrado, na maioria das vezes, as baleias entram apenas no canal da barra e saem sozinhas, sem encalhar e sem necessidade de intervenção.

 

A região por onde as baleias passam é chamada de Rota da Baleia Franca, integra os municípios de Garopaba, Imbituba e Laguna, considerados berçários. É nessa região da costa sul de Santa Catarina que as Baleias Franca, que passam o verão se alimentando na Antártida, vêm ter os seus filhotes e amamentá-los entre julho e outubro. Período do ano que muita gente visita a região para contemplar de longe o espetáculo da natureza de uma das espécies de baleias mais ameaçadas de extinção.

 

 

Resgate da baleia em 2016 – Crédito Ronaldo Amboni

 

 

 

 

Resgate da baleia em 2003

 

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