Hoje Jaqueline está rindo à toa

Olhar angelical, um gentleman. Carinhoso, apaixonante. Até que veio um vírus do oriente, que transformou a vida de Jaqueline Fogaça, 38 anos, o homem apresentado como amor da vida, marido, virou um carrasco, chantagista e ameaçador.

Seis anos juntos, a pandemia provocou o medo da morte por um vírus e nas mãos de um homem. O casamento estava marcado para 10 de agosto de 2020.

Professora efetiva, casa própria, pele de pêssego, olhos claros, roupas combinando, carro, um sorriso cativante, organizadora de campanhas entre amigos para ajudar imigrantes africanos na região de Criciúma.

Não suspeitava do homem com cheiro de perfume importado, solícito, gerente de uma instituição, sempre bem-arrumado, e só elogios dos colegas de trabalho.

Era mágico, um sonho de amor, tudo estava indo bem. No mês de março de 2020, os dois tiveram que conviver 24 horas por dia e a tampa da caixa de pandora foi arrancada.

Começou a controlar horários dela, amizades criticadas e roupas. O psicológico foi ameaçado quando ele levava assuntos internos para a família e isso a incomodava.

Ele não me aceitava, do jeito que eu sou. Era outra pessoa”, relembra depois de seis meses que pediu o divórcio.

Jaqueline no começo do namoro, com os primeiros sinais da verdadeira personalidade do seu parceiro, ela fez o que milhares de mulheres fazem perdoam porque acreditam que o abusador vai mudar. E isso não acontece.

Resultado ? “Comecei a mudar comportamentos para não levantar a fúria dele”, e lá foram cinco anos.

O estresse era tão grande, ao perceber que não era uma relação saudável. Triste e melancólica, numa ida para a cidade vizinha capotou o carro várias vezes. Saiu viva e louca para dar um basta. Ele não aceitou. Semanas para ele sair da sua casa. Jaque ficou com medo, amigas através de mensagens davam força e resiliência. Pesadelo acabou.

Hoje está encantada com a liberdade conquistada. Já deu entrada na separação e começou novos cursos.

Os gatilhos de alerta

Segundo os psicólogos, o alerta é claro quando o companheiro vai desde o controle velado das redes sociais da vítima até insistência em obter senhas pessoais, controle de conversas, curtidas e amizades online.

Outra estratégia comum em abusadores é o isolamento da vítima de seus amigos e familiares. Humilha, invade a privacidade, faz chantagem, entra em um ciclo onde agrada e maltrata em seguida.

A primeira fase é a tensão, é quando a mulher vai cedendo. A segunda é a da crise, quando tem briga e mais escalonamento da violência. É quando ela é xingada ou sofre abuso físico ou sexual. E a terceira fase é a lua de mel, que são as conversas íntimas, sexo intenso e quando ele promete que vai mudar. Neste momento, a vítima sempre perdoa, porque ela acredita que o abusador vai mudar. E isso não acontece”. Lá se foram seis anos nesta expectativa na vida da Jaqueline. “Pensava que ele iria melhorar e isso só piorava e eu não queria ver”, lamenta.

A intimidade revela os indivíduos

A escalada de violência é mundial. Segundo dados da ONU Mulheres divulgados no fim de setembro, o confinamento levou a aumentos das denúncias ou ligações para as autoridades por violência doméstica.

Para a psicanalista Marina “a intimidade revela os indivíduos”. A restrição da vida social e das relações vividas na “rua”, tiveram de ser ressignificadas. A intimidade e as relações estão interpeladas por uma outra ótica .

A pandemia mundial do coronavírus redimensionou desde o campo público, ao campo privado. Não há quem não tenha reorganizado sua rotina, suas relações sociais e jornadas de trabalho e neste sentido, as dinâmicas familiares e conjugais também não ficam de fora. A crise socioeconômica e sanitária reverbera na subjetividade dos indivíduos e suas relações. Medidas de confinamento e isolamento social, atravessam a intimidade de quem divide o dia a dia no âmbito doméstico.

Isso deflagrou uma gravidade no campo relacional: a violência.

Dados estatísticos sugerem o agravamento da violência de gênero durante a pandemia. Só no Brasil, por exemplo, foi registrado o agravamento do número de feminicídios ainda no primeiro semestre de 2020, 1,9% a mais que o registrado no mesmo período no ano de 2019, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A violência doméstica está atrelada também a consequência de questões estruturais macroeconômicas, distribuição desigual de renda e relações de poder desiguais. Muitas situações de violência são invisibilizadas no dia-a-dia, por vezes banalizadas e sustentadas pela máxima |”em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”.

Para entendermos a complexidade do fenômeno que envolve a violência de gênero é imprescindível recorrer a teorias que a compreendam em toda sua dinâmica social e estrutural. Há uma legitimação da violência contra as mulheres em nossa sociedade, que é respaldada pela cultura do machismo. Para Saffioti & Almeida (1995), a violência de gênero pode ser entendida como um tipo específico de violência que objetiva à preservação da organização social de gênero, fundada na hierarquia e na desigualdade de lugares sociais e sexuais. Ela é então produzida no interior das relações de poder, visando o controle de uma parte sobre a outra.

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