A personagem Telma é uma catarse. Uma certo dia, eu e meu namorado saindo para um jantar, nos beijamos num elevador cheio de câmeras.

Ao passar pelo hall central, o portão é acionado pelo vigia, no caso, uma mulher, ela nos olhou, com curiosidade.

Na sua frente dezenas de telas de câmeras, monitoramento vinte e quatro horas.

Ela trabalhava num estilo big brother, foi a minha inspiração para criar a Telma. Mulher inteligente, perspicaz, com vontade de fazer algo diferente na vida. Observando as câmeras, ela tenta através dos moradores conhecer a si mesma. 

Stalkeando pelas câmeras de segurança. Telma não vai  mais ficar entediada

 

Aprendendo o que é paixão com o 907

 

 

 

 

O vento bateu forte na janela. Eram 18h20 e ele poderia chegar a qualquer momento.

Lá fora, o dono da quitanda encerrava os trabalhos, a moça que vendia salgados passava com a cesta vazia. Telma estava com fome, turno de oito horas numa segunda-feira a deixava mais ansiosa também, pois ele poderia chegar a qualquer instante.

Final de semana em casa, com o chão da cozinha para esfregar, o ralo entupido e a cortina mofada. Bicas de cigarro no pátio de casa, alertava que o marido mentiu ao dizer que parou de fumar. Casada há 20 anos, ele era o representante fiel de projetos que não deram certo: vender capas de estofados que comprou da china pela internet, cuidar de cachorro, alugar DVD. Nada vingou e as despesas sim. Telma segurava as pontas e muito mais no turno de segurança, numa guarita de um condomínio classe A.

Uma hora e meia de metrô era como entrasse num túnel do tempo acelerado, deixava a vida sem graça para tornar uma mulher alegre e com brilho no olhar e unhas alinhadas e cabelos amarrados com um coque no alto da cabeça.

Acelerava os passos para conseguir vê-lo na esquina do prédio com a sua moto vermelha. As vezes dava certo. No meio da manhã ele saia para trabalhar, sem pressa e cumprimentando quem passava. Até Telma numa terça-feira tediosa ouviu um bom dia. Já bastava para dar aquela respirada profunda sem ninguém perceber.

Mas naquela manhã ensolarada, com poucas nuvens no céu e as pessoas reclamando do calor às 9h da manhã, ela não viu ele e sua moto saindo da garagem do prédio.

Apreciava sua postura na moto, esguio, dono de si, com o capacete preto, parecendo um selvagem pronto para sair pelo mundo e nunca mais voltar. Telma queria ir junto.

A realidade batia e olhou para o relógio comprado de sua irmã falida e abriu a guarita, com cinco monitores e 10 câmeras para controlar.

Foi por ali, pelo quadrado cinza, que o morador do 907, a fez ajudar a passar o tempo fechada num aquário.

A hora da chegada dele era o ápice para ela. Naquele dia com vento forte, sabia que ele poderia chegar a qualquer momento.

Prevendo a chuva que poderia, ele acelerou a moto. Logo estava na porta do condomínio pedindo passagem. Era Telma que autorizava e abria o portão. Normas de segurança. As vezes demorava alguns segundos só para ter mais tempo com ele. Seu olhar cansado para a câmera de segurança. Ele fechava os olhos suavemente para recuperar mais força e chegar até o seu apê. Telma nestes rápidos momentos, já sabia o que tinha sido o dia dele. Hoje foi calmo, estressante, morno, chato. Pelo sistema acionado toda vez que um morador abria a porta, ela sabia o seu nome: Marcos Antunes.

Até chegar na porta do apê, ele passava por oito câmeras e era por ali, que Telma ficava espionando. O cinto usado, a calça preta, a sempre jaqueta de couro, o dia que ele passou no mercado e comprou frutas e chocolates. Nunca trazia bebidas, raramente, fazia compras grandes. Ele estava emagrecendo. Será que estava numa dieta balanceada? Ou estava triste ?

Deu um zoom na câmera para ver suas expressões melhores, olhar deslumbrado, um sorriso bobo no espelho do elevador, uma mexida no cabelo bagunçado pelo capacete, uma verificada de mensagem no celular: ele está apaixonado, deduziu Telma.

Na próxima, vou tentar ver a msm na tela do celular dele, pensou rápido e sem medo de ser descoberta.

Ela inventava fantasias para não morrer entediada, pois as pessoas eram tão previsíveis, nada acontecia de novo, na sua vida, na sua casa, nem no espelho na sua casa, não encontrava mais a mulher que um dia foi.

Marcos acendeu algo misterioso, na sua vida insipida.

Vergonha

Ela tinha vergonha, não era o seu objetivo fazer ser percebida pelo charmoso do 907. Mas cada entrada dele no prédio no seu turno, seu coração agitava. Chegou a contar os passos dele da garagem até a porta do apê: 220 pegadas ele deixava no chão triste.

Adorava quando o elevador demorava. Ele costumava olhar para o espelho do hall de entrada e arrumar o cabelo amassado pelo capacete, mexia o pescoço para dar uma relaxada enquanto esperava o elevador.

Uma mensagem chegava, ela sabia que deveria ser dela, pois ele verificava rápido. Ficava ansioso e ligeiro, ao explorar o bolso para pegar o celular.

Era uma mulher, mas ela não era do prédio. Nunca viu ele saindo do apartamento, nem recebendo ninguém, durante o turno de Telma.

Não podia sair da guarita. Os outros guardas faziam a ronda pelo condomínio. Telma até pensou em inventar uma ida ao banheiro para encontrá-lo nas proximidades da garagem, mas não tinha coragem.

Sua fantasia era imaginar e tirar as conclusões do humor de Marcos, pela batida na porta, pelo olhar cansado no elevador e avaliava com o seu.

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Falta de empatia com o 102.  Espião de capachos

Parece que tinha um reino na barriga. Quando ele aparecia já dava uma indignação só de olhar. Não tem aquelas pessoas, que você nem sabe porque não gosta ? Isso que Telma só observava pelas câmeras.

O cara cabeludo do 102, vivia com um cachorro, chinelo de dedo era sua marca. Na porta do seu apê, o capacho já dizia: Bem vindo só com cerveja. O hilário era que ele nunca recebia ninguém.

Mas era o terror dos vizinhos. Som alto, cachorro latindo, batida de liquidificador às 3 da madrugada, móveis arrastados e tiros no videogame.

Não se importava com ninguém, não era simpático, não abria as portas para as velhinhas do 802 e nem do 702. Não esperava as pessoas no elevador, nem boa noite dava, seu lixo pingava e ele das câmeras parecia cheirar mal.

Era viciado em comida tailandesa, chegava toda a noite por entregadores de aplicativo.

Regra do condomínio era o cliente descer para pegar seu jantar, era a parte da noite, que Telma detestava. Ela autorizava a passagem dele pela portaria para pegar na sessão de entrega. Se demorasse segundos, lá vinha ele: “Tá dormindo, não me viu aqui ? Poxâ que lerdeza”.

Neste momento o antipático do 102 ficava do lado dela, mas do outro lado do vidro, ela podia enxergar o molho de shoyo amarelado na camiseta dele, barba desgrenhada e uma unha por fazer da mão esquerda.

Nunca dava gorjeta. E reclamava quando o entregador demorava.

Parecia que seu bafo ficava no vidro. Seu cheiro pelos corredores.

Seu andar era pesado, triste e parecia andar com uma armadura. Suas roupas de forasteiro. Não se olhava no espelho do elevador. Não sorria, nem falava com ninguém.

Mas tinha uma mania esquisita. Ficava vendo os capachos dos apartamentos nos corredores. Ele saia do primeiro andar, subia no quinto e parava na frente dos capachos, olhava e depois seguia.

Esperava as pessoas saírem do corredor na escada, não gostava de encontrar com ninguém. Nestes momentos, parecia amargurado e insensível.

Seu cachorro era parecido com ele, olhar de bravo e espalhava pêlos.

Não gostava de ir na academia, e costumava reclamar do barulho do pessoal da quadra de esportes.

Incomodava. O terror do turno de Telma. Tinha medo dele. Assim como todos os moradores.

Um dia chuvoso e inexpressivo, Telma ao avistá-lo pelas câmeras, imaginou estar no lugar dele, sem amigos, sem comida quentinha feita na hora, risadas e sem poder conversar com alguém. Quem era ele ? Por que agia daquela forma ?

Pela primeira vez, depois de anos observando o 102, ela estava sendo empática com ele. Ficou intrigada.